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GARCÍLIO DA COSTA FERREIRA
   

MILITAR E BENFEITOR.

 

      São Paulo, 02 de agosto de 1966

 

Hebe, esta carta é dirigida a você. Tem, entretanto, um destino certo – Fêgo de Camargo. Ela é longa Hebe, é saudosa, diferente de todas as que você tem recebido no decorrer de sua carreira artística. É uma homenagem que faço ao violonista do Cine Polytheama de Taubaté.

Quem lhe escreve é um admirador e você me perdoará o tratamento íntimo, pois, você na vida artística para milhares de fãs é assim – Hebe. Quando lhe vejo na TV, digo aos meus companheiros com indisfarçável orgulho: “esta é uma taubateana prata da casa”. Mas, no íntimo Hebe, tenho uma dúvida atroz, que você não seja uma taubateana. Para minha alegria ou tristeza você me dirá se é ou não é. Mas, vamos ao destinatário certo. Eu sou do tempo do cinema mudo em Taubaté, e nosso Fêgo entrava pela porta principal do cinema e percorria o corredor até ao piano com o violino debaixo do braço. Ao piano, já se encontrava Cerina, esperando-o. O homem do rabecão, magrinho e baixinho, não me deixou na memória, hoje cansada, o seu nome.

Havia, se não me engano, outro elemento na orquestra, mas também não me lembro o seu nome. Tudo já vai tão longe, meus cabelos já estão branqueando, mas a memória ainda teima em reter fatos que fazem às vezes, sermos felizes em relembrá-los. Quando Fego entrava era um Deus nos acuda. Valia mais a entrada do violonista do que do espetáculo, pois, ele servia com sua presença, para aguçar nossa alegria, pela próxima chegada de Tom Mix, Greta Garbo ou Glória Swanson.

Logo após a chegada de Fego, a um olhar dele aos outros músicos começava a introdução, só então parava a nossa alegria infernal e o bater dos pés. Fego, executada a seguinte música, colhia as palmas de crianças inocentes e de adultos. Parava um pouco para descanso, a expectativa era intensa, os nossos olhos estavam firmes nos músicos e na tela, e a simples sombra do dedo do operador que refletisse na alva tela era para nós, moleques de rua, motivo de transbordante alegria. O baleiro corria os corredores apregoando sua mercadoria “baleiro...baleiro, côco, chocolate e ortelã”. Na rua, à beira da calçada, gritavam “pinhão cozido, 60 por um tostão” ou “amendoim torradinho, quentinho”. Era tudo tão bonito, Hebe, que você não faz ideia. Parecia que o mundo era melhor. A um sinal do maestro Fego de Camargo, entrava a segunda parte da orquestra, e, ao terminar a segunda parte. nova gritaria e assovios. Era a satisfação máxima daquele aglomerado de crianças pobres.

Começava o espetáculo sob o acompanhamento da orquestra, uma música leve ou forte, de acordo com a cena do filme apresentado. Nas gerais, “no galinheiro” como nos chamávamos, era uma gritaria dos infernos, enquanto o revólver do Tom Mix despejava balas, sem precisar carregar a arma – agora é que a gente sabe que revólver só tem seis balas – só o facão do soldado impunha respeito, ele não precisava falar, dar ordens, a presença da farda e do sabre na cinta, era o suficiente. O espetáculo decorria e nos nossos corações infantis pedíamos a Deus – naquele tempo era tudo tão diferente, Hebe – que a sessão não terminasse nunca. Mas terminava.

Íamos cada um para sua casa, não sem antes admirar, com água na boca as vitrines de doces da Padaria e Confeitaria Suíça Vitória e muitas vezes nenhum cafezinho, porém, exultantes de satisfação íamos pelas ruas comentando a atuação do “mocinho” e a pouca sorte do “bandido”. Naqueles tempos os filmes educativos, o “bandido” pagava pelo seu crime antes de qualquer vitória concreta. Hoje não, ele só morre ou vai para a cadeia depois que deixa na mente de cada adolescente, este raciocínio: “Ele morreu, mas, aproveitou antes e gozou a vida”. Mas, deixa prá lá e vamos falar de Fego de Camargo. Terminada a sessão vinha com colegas de orquestra para o bate-papo e o cafezinho no “Café Guarany”, de Heitor Sene ou no “Convênio”. Você Hebe, poderá não gostar desta carta - “O que tenho eu com essas antiguidades?” – mas, você já pensou o quanto é querida do público, “Rainha dos Cavalarianos do Regimento Nove de Julho da Força Pública”. Essa simpatia e essa simplicidade que contagiam multidões sabem o que é isso. Houve um programa seu no Dia das Mães que eu chorei quando você recebeu o abraço de gratidão de dona... Que pena! Não sei o nome dela, mas é esposa de Fego e a mãe de Hebe, e basta! Foi uma apoteose aquela festa, como gostei! Eu sempre gosto de festa onde haja ternura e amor. Eu queria que o mundo fosse melhor do que é, que houvesse mais justiça, mais amor, mais igualdade, que os ricos fossem menos poderosos e os pobres menos miseráveis. Já tomei muito seu tempo. Receba, portanto, Hebe, essa carta que é uma homenagem saudosa de um admirador dessa querida família taubateana e quando nos seus programas, lembra de Taubaté, refira-se a nossa terra e a nossa gente. Diga também Hebe, palavras aos internados do “Presídio Militar Romão Gomes“ da Força Pública, fãs incondicionais de seus programas. À Fego Camargo e Senhora, a você e esposo e ao garoto, um abração taubateano.

 

                                                      3º Sgt Garcílio da Costa Ferreira

                                                              2º Sgtº RE 5106-2

 

 

......

 

 

A TÃO AGUARDADA RESPOSTA DE HEBE CAMARGO.

 

 

 

 

São Paulo, 21 de agosto de 1966

Meu caro senhor Garcílio

 

Profundamente emocionada respondo a sua cartinha que me sensibilizou de verdade. Eu nem encontro palavras para dizer, depois de tantas coisas bonitas que o senhor me escreveu. Para que fique contente, digo-lhe que sou taubateana, com muito orgulho.

Sou da terra do meu pai, de que o senhor tanto fala nesta carta. Ele por certo se lembrará do senhor, quando ler esta. O senhor me proporcionou um enorme prazer e muita alegria, lembrando essas coisas tão interessantes do tempo de sua infância e do meu pai. Ele vem todos os dias em minha casa e juntos vamos ler a sua carta.

Gostei imensamente de ter recebido uma cartinha tão carinhosa, de uma pessoa que foi companheiro de meu pai na juventude e que agora acompanha pela televisão os meus programas, com o mesmo carinho e admiração. Deus lhe pague e lhe dê muita saúde. Queira por favor, transmitir aos seus companheiros o meu abraço e os votos de felicidade. 

                         Cordialmente, 

                         Hebe Camargo.

 

......

 

 

FORÇA PÚBLICA, EU TE AMO! 

 

Porque te amo? À resposta, é preciso uma explicação. É necessário voltar os ponteiros do relógio do tempo, ao longínquo 10 de maio de 1935. Nesse dia, por não haver sido chamado a São Paulo onde fiz alistamento, fui ao Instituto Correcional de Taubaté, cidade onde residia e ainda resido, saber na Secretaria se havia alguma notícia sobre o alistamento. E havia: que eu fora alistado no dia 30 de abril de 1935, Bol. Geral nº 96, da mesma data. No mesmo dia tomei uma carona de caminhão e cheguei a São Paulo as 16:00 horas. Expediente encerrado. Sem dinheiro, com os tênis furados nos dedos, um capote velho e roto, só tive uma alternativa, dormir na mesa de concreto do Jardim da Luz. Meu travesseiro foi um tijolo forrado com o boné, que a Providência Divina me ofertou. Ali passei até o amanhecer do dia 11 de maio de 1935. Os portões do C.I.M. (Centro de Instrução Militar) estavam abertos e com o vai-e-vem dos soldados também fui. O serviço de alistamento ficava nos fundos, à direita, junto aos muros da Casa de Detenção. O encarregado da seleção era o Aspirante Alfredo Guedes de Souza Figueira. Aguardei a chamada do meu nome, naquela turma de moços, que, como eu, esperava a oportunidade do emprego modesto que nos tirasse da miséria.

Depois de várias chamadas ouvi meu nome: Alistado Garcílio da Costa Ferreira! Com a mão no alto me apresentei. Fui levado à presença do Aspirante Guedes, que foi taxativo: Você deveria se apresentar no dia 08 de maio e não 11, portanto, seu alistamento está cancelado. Recebi aquele veredictun, completamento aterrado, com os olhos parados nos olhos daquele homem, que iniciando sua vida como Aspirante a Oficial, não tinha um mínimo de sensibilidade para com aquele moço mal trajado, sem dinheiro ou meios de voltar para Taubaté, onde deixou a pobre velha tia e o irmão desempregado, com três meses de aluguel atrasado. Tomando coragem fiz ver àquele homem a dramática situação em que me encontrava. Não consegui demovê-lo, que, virando-se para o soldado encarregado, determinou: leve esse elemento até o portão da guarda e avise que não o deixe entrar novamente. Acompanhado do soldado fui posto fora do Quartel por ordem daquele homem prepotente e ciente de seu poder de decisão.  Na Rua Jorge Miranda, encostei-me na parede para não cair. Ameaçado de forte tontura pois nem café havia tomado, refeito, respirando fundo o aroma do Jardim da Luz, dirigi-me em passos cambaleantes até a esquina da Avenida Tiradentes, que contornei. Ali na esquina deparei com uma placa de metal, limpa com Kaol e que se lia "Comando do C.I.M". Completamente aparvalhado subi as escadas e atingi uma área em que havia um banco de madeira, onde sentei, aguardando a chegada de alguém, que logo chegou. Vendo aquele moço de aspecto andrajoso, perguntou o que eu queria, o que respondi, falar como comandante, eu sou de Taubaté e fui apresentado pelo prefeito para verificar praça na Força Pública. Ele me mandou aguardar e desapareceu atrás de uma porta. Minutos depois eu estava na presença do Major Oscar de Melo Gaia.  Perguntado o que desejava, respondi que estava me alistando na Força Pública e perdi o prazo de apresentação por não ler jornais ou ser avisado. Cheguei com onze dias de atraso sendo posto fora do Quartel pelo Aspirante Guedes, encarregado do alistamento. Fiz ver-lhe que era apresentado pelo Prefeito de Taubaté, José Miliet Filho o que ele disse ser seu amigo.

Fiz ver-lhe a situação em que me encontrava, sem meios de retornar a Taubaté e a cada fase ele respondia com o seu tique nervoso, o prefeito é meu amigo, eu fui comandante do 5º B.C. Depois de conversar sobre Taubaté, disse ao ordenança, chame o Aspirante Guedes. Este logo veio e se perfilou ante o chefe, às suas ordens comandante: "Pode resenhar o civil Garcílio, é um caso especial de Taubaté". O Aspirante Guedes lançou um olhar fulminante sobre aquele trapo humano que se encontrava ali e determinou, vamos! No caminho até a Secção de Alistamento me disse: "Você entrou na Força Pública pela porta da bajulação, vai dar um mau soldado". Este foi o primeiro episódio que marcou a minha vida na Força Pública de São Paulo. É por isso que eu te amo Força Pública de São Paulo. Força Pública de Cel. Milton de Freitas Almeida, de Cel. José Lopes da Silva, de Cel. Benedito Elpídio Hidalgo, de Cel. João de Quadros. de Cel. Ernani de Tolosa, de Cel. José Inojosa e tantos outros que só fizeram a grandeza moral de São Paulo. E neste rodapé, não poderia deixar de agradecer ao então Major Oscar de Melo Gaia, a situação em que vivo hoje relativamente cômoda pelo simples gesto de me acolher na Força Pública. E muitos anos depois, já no 5º B.C. de Taubaté, como Cabo da Guarda, recebi a ordem de veladamente e com especial sigilo, observar os movimentos de um certo Coronel que "gozava" férias no Estado Maior do Batalhão. E no dia do teu aniversário eu repito: Força Pública eu te amo!

 

                     Taubaté, 15 de dezembro de 1996.

 

                                                  Garcílio da Costa Ferreira

                                                    2º Sgtº RE 5.106-2

 

*******

 

MENSAGEM À GISLENE.

 

Gislene, uma pombinha branca voou daqui de nossa casa, pousou no telhado vermelho do Shalon, sacudiu as asinhas, limpou o biquinho, transformou-se em uma linda moreninha e entrou no salão em festa, do retiro espiritual do Shalon. Eu costumo dizer, Gislene, que somente três coisas salvarão nossa Pátria da luta hecatombe que nos ameaça: O trabalho, o civismo e a fé.  

É nos dedicando totalmente ao trabalho, o dia inteiro, que ganhamos o suficiente para o nosso sustento, que dá alento à vida e nos enche de felicidades. É cantando hinos patrióticos que procuramos cultuar as virtudes da nossa Pátria, cumprindo as leis emanadas das autoridades legislativas e executivas, que nos orgulhamos de sermos brasileiros. E é a fé – felizes os que têm fé – que faz com que sigamos a estrada reta e larga, toda florida lado a lado. E é essa mesmo estrada que nos leva com fé, ao trabalho e ao civismo.

O Shalon, que posso dizer eu do Shalon se não estudei sua origem e sua finalidade? Só sei que é uma instituição de arregimentação de jovens, procurando incutir-lhes na mente, o comportamento certo e justo da mocidade brasileira.

Em cada bairro de nossa Taubaté, haveria de ter um imenso Shalon, para que toda a juventude fosse beber nessa fonte de fé, trabalho e civismo, que falta para a felicidade de nossa Pátria.

Felicidade Gislene, em companhia de suas coleguinhas, tão lindas como você.

 

                       Taubaté, 24 de outubro de 1987.

 

                        Garcílio da Costa Ferreira

 

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UM POETA...

 

Papai sempre muito emotivo, ia às lágrimas quando ficava sabendo do falecimento de algum amigo. Cabisbaixo, levantava-se e saía em silêncio percorrendo os cômodos da casa, e, chegando até à sala de jantar, pegava uma caneta e escrevia pequenas memórias. Abaixo, algumas lembranças de momentos de reflexão e tristeza.

 

                                      A TRISTE DESPEDIDA.     (O falecimento de algum amigo)

 

Meus companheiros estão indo,

Na faixa da mesma idade.

Em direção do infinito,

  Caminho da eternidade.

 

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       OBRIGADO.   (Sobre os filhos)

 

Minha casa é tão bonita!

Meus filhos entram e saem...

Minha vida é tão feliz!

Meus netos vem e se vaem...

 

Não sei a quem agradecer

Se ao destino, aos outros ou a Deus.

Só sei que cumpri na vida

A tarefa de conduzir os meus.

 

A quem agradecer tanto faz

Felicidade, saúde e alegria.

Se nada mais fiz de concreto

Do que lutar no dia a dia.

 

Taubaté, 31 de dezembro de 1983

 

Garcílio da Costa Ferreira.

 

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                      O DESENLACE.     (Quando mamãe faleceu)

 

Minha casa tem varanda

Grande sombra tão gostosa!

Sem barulho, sem ruídos

Hoje está silenciosa.

 

Taubaté, 02 de novembro de 1996

 

......

 

 

O "VEREADOR" QUE NÃO FOI ELEITO PELO POVO, MAS VIVEU PARA O POVO.

 

Garcílio da Costa Ferreira nasceu em Ubatuba-SP em 1º de julho de 1913, mas era taubateano de coração. Chegou a Taubaté depois de vários dias, vindo de uma exaustiva viagem a pé, junto de sua mãe, tia e dois irmãos, sendo um, recém nascido.

Imaginem o sofrimento pelo qual passaram, ao percorrerem toda a subida da Serra do Mar, dormindo ao relento e ao abrigo da própria natureza. Órfão de pai aos 6 anos, aqui viveu durante 88 anos. Sua vida inteira dedicada ao trabalho teve início aos 8 anos, quando do falecimento de seu irmãozinho de nome Prisciano, com 1 ano de idade. Passou então, a tomar conta de seu irmão caçula José Luiz e ajudava sua mãe e sua tia nos trabalhos domésticos. Residiam à Rua Mariano Moreira nº 20, quarteirão entre as Ruas do Comércio (atual Newton Câmara Leal Barros) e Dr. Silva Barros. Nesse saudoso local de tantas lembranças, uma passagem cotidiana: o menino Garcílio, ao se dirigir ao Grupo Escolar Dr. Lopes Chaves e ao subir a ladeira da Rua Mariano Moreira, alcançando a Rua Marquês do Herval, acenava para sua mãe, tia e irmão que pacientemente aguardavam o seu até logo...

Menino de corpo franzinho, sempre fora atirado para o trabalho e a ele devotaria toda sua paixão e entrega. A ele caberia a tarefa árdua de vender os deliciosos sorvetes da Sorveteria Raphael pelas ruas de Taubaté empurrando pesado carrinho adaptado à rodas de ferro e a carregar pesadas sacolas das senhoras que faziam suas compras aos sábados e domingos no antigo Mercado Municipal. Em 1925, com o falecimento de sua mãe, muda-se, alguns anos depois, em 1929, com sua tia e irmão para São Paulo. Na capital dos paulistas, enceta uma nova empreitada, desta vez, como vendedor de jornais. Durante as Revoluções de 1930 e 1932, grita pelos quatro cantos da cidade para vender seus jornais: "Extra, extra, extra, Washington Luiz é deposto", "Extra, extra, extra, Getúlio assume o poder", "Extra, extra extra, São Paulo marcha contra o resto do Brasil", "Extra, extra, extra, estudantes são mortos", "Extra, extra, extra, tropas federais bombardeiam São Paulo".

Com o fim da Revolução de 1932, volta com sua família para Taubaté e em 1935 ingressa na Força Pública do Estado de São Paulo. Em 1936, seu irmão José Luiz seguiria o mesmo caminho, e ambos, em 1937, concluiriam o Curso de Formação de Cabos. Diversas vezes destacado, comandou os Destacamentos de Jacareí, Caraguatatuba e Cunha, bem como cumpriu serviços na capital paulista, Taubaté e Tremembé, sendo que nesta última concluiria seu tempo de serviço, aposentando-se.

De volta a Taubaté, cidade que um dia o acolhera, bem como sua família, dedicaria seu tempo ao comércio. Mais tarde, em 1960 com a construção da nova Capital Federal, parte para sua grande aventura de homem destemido aos negócios, fundando em Brasília um empreendimento gigantesco denominado "Água Santa Clara - Pura, Leve e Saudável", empresa de grande sucesso e a primeira desse gênero. Em meados de 1964, com sua tia Maricota muito velha e acamada, resolve regressar com sua família a Taubaté.

Nesta cidade se destacaria por sua entrega às causas públicas, ensejando sempre a dizer que "...não precisaria ser eleito vereador para trabalhar para o povo". E, com essa firmeza de pensamento teria papel importante na vida de Taubaté, contribuindo sobremaneira para o progresso de sua gente. Dentre seus feitos, se destacariam:

a. A construção da passarela do Ginásio do Estado;

b. O término da construção do Viaduto Itália;

c. A construção da ponte ligando Independência-Quiririm;

d. A revogação de doação de terreno para a construção do Forum Cível;

e. A construção irregular do prédio da Drogasil na Rua Duque de Caxias;

f. A demolição do prédio do espólio de Abdo Rechdan; e,

g. Denúncia de água contaminada aos alunos do Ginásio do Estado (Estadão).

 

  .....

 

A INAUGURAÇÃO DO PRONTO SOCORRO MUNICIPAL.

 

O Prefeito de Taubaté é cumprimentado por um homem do povo, um companheiro, no dia 3 de agosto de 1996, quando da inauguração do Pronto Socorro Municipal.

É preciso que se diga, a bem da verdade, que o Prefeito Ortiz, com pouco mais de um ano, e nas proximidades de deixar o cargo, ainda teve tempo de construir este mini hospital, que deu o nome singelo de Pronto Socorro.

Marca época no calendário político de Taubaté “Antes de Ortiz-Depois de Ortiz” pela grandiosidade de permanência na política taubateana, com homem íntegro, trabalhador e honesto, que dá ao munícipe a certeza de que o dinheiro público é bem administrado.

Ao nosso Prefeito, os parabéns pelo evento de cunho social.

 

Taubaté, 03 de agosto de 1996.

Garcílio da Costa Ferreira

 

......

 

 

ÁGUA IMPRÓPRIA.

 

 

Ilmo. Sr. Dr. Médico Chefe do Centro de Saúde de Taubaté.

Nesta.

Na qualidade de pai de aluno do Instituto de Educação Monteiro Lobato, desta cidade, solicito a Vossa Senhoria providências no sentido de que seja feita, por elementos especializados desse Centro, uma verificação no reservatório de água, de que se servem os alunos.

Tive a oportunidade de verificar com meus próprios olhos, o péssimo estado da água que os alunos bebem, pois, no referido reservatório que é exposto à poeiras e outras sugidades, existem papéis servidos, panos, etc.

Na conversa que mantive com o senhor Diretor daquele estabelecimento de ensino, fui informado pelo mesmo “...que até roupas já foi apreendido de pessoas que usam o reservatório para tomarem banho”.

Diante de tamanha calamidade, valho-me deste para pôr as autoridades sanitárias de Taubaté, ao par da situação.

Atenciosamente,

Garcílio da Costa Ferreira

 

......

 

BATENDO DE FRENTE!

 

Exmo. Sr. Dr. José Sarney.

DD. Presidente da República.

Meus respeitos.

 

Acostumado a vê-lo na TV ou escutando “Conversa ao pé do rádio”, ou nas entrevistas do Boris e da Marília Gabriela, ou ainda vê-lo na “Semana do Presidente”, ficou o prezado Presidente quase assíduo frequentador do nosso lar modesto. Aprendi a julgá-lo nos acertos e desacertos, compreendendo  a vontade de acertar, mesmo contra os “inimigos íntimos” que com tapinhas nas costas vendem por 30 dinares o Cristo Terreno que procura por todos os meios o “Fim Social”. Assim foi no Plano Cruzado, que todos queriam a paternidade e depois de morto o menino, ninguém foi ao velório. Onde estão hoje os cavalheiros dos acordos? Nunca se esqueça que guilhotina não faz acordo com pescoço!

Empolgado com o Plano Cruzado, como “fiscal do Sarney” lutei pelo preço do leite que custava Cr$2.80 e hoje custa Cz$3,30 no novo dinheiro. Colecionei inimigos e descontentes como “fiscal do Sarney”. Fui ao prefeito, procurei a polícia, fui à Sunab, para receber desta – um ano depois – três cartas, dizendo que eu não tinha razão. Escrevi uma carta a Vossa Excelência, sugerindo a “Vaca Sagrada” em benefício do problema do leite. Recebi resposta, mas, a vaca continua morrendo nos matadores. Preocupado com os destinos de meu país e o êxito do nosso presidente, assustado como todos os brasileiros com o problema carcerário do nosso país (recorte de jornal anexo), venho submeter à apreciação de Vossa Excelência a minha ideia, para resolver para sempre o problema carcerário do Brasil, senão definitivamente, ao menos nesses 50 anos que não vamos assistir até o fim. O que não podemos é assistir o que está acontecendo nas prisões brasileiras, transferindo a culpa ao destino da fatalidade, sendo que todos somos culpados. Há 30 anos antes de Cristo, Cássio dizia a Brutus: “A culpa, meu caro Brutus, não é das estrelas, é de nós mesmos”.

Então vamos ao principal desta carta. Como o senhor sente na própria carne, a ferrovia Norte-Sul está sendo obstaculada até ao desespero, como foi a Eletrobrás, de Getúlio. Aproveitemos esse evento para resolvermos o problema carcerário do nosso Brasil. Pelos jornais, rádio e televisão fiquei sabendo que a ferrovia terá 700 km de Açailândia a Brasília. Sabendo-se que o centro dessa distância é 350 km, construa-se ali a “Penitenciária Nacional”. Dessa estação para a esquerda ou para a direita, não importa, construa-se uma estrada com duas pistas asfaltadas, com 10 km de extensão, no fim da qual, em uma área de 100.000 m2 ou mais (os engenheiros optarão), construiremos muros de concretos de 10 metros de altura, aproveitando a mão de obra gratuita dos detentos. O Exército Nacional destacará para esse local um batalhão composto de médicos, engenheiros, pessoal para obras (soldados, cabos e sargentos). Construídos os muros, em galpões provisórios alojaremos todos os presos com mais de 10 anos de prisão de todo o território nacional. Os de menos de 10 anos de prisão, revisão do processo e... rua. Em todos os estabelecimentos penitenciários vagos dos estados, adaptaremos escolas, para filhos dos próprios detentos e à infância desamparada e carente. Os estados de onde os detentos são nascidos, arcarão com as despesas de manutenção dos mesmos na Penitenciária. Junto um gráfico a grosso modo, que pode ser feito sobre esse empreendimento.

 

Garcílio da Costa Ferreira

Rua José Pedro da Cunha, nº 239, cep 120800, Taubaté-SP.

 

......

 

QUANDO A PREOCUPAÇÃO É UMA CONSTANTE.

 

Como faço sempre, zelando pelos frutos da magnífica administração de Vossa Excelência, venho com esta, solicitar urgentes providências com referência ao estado precário que se encontra a propriedade de Abdo Rechdan, na Avenida Charles Schineider, próximo ao número 661. O barracão vai ruir na primeira tempestade que cair em Taubaté, matando andantes que lá pernoitam, ou crianças das redondezas que lá vão brincar.

Sendo assim, se não for tomada uma providência hoje, vai acontecer como o ocorrido com a parede da CTI e a morte do operário que caiu da bicicleta na viela da Avenida Itália com o Viaduto, por falta de proteção. Na CTI morreu um inocente menino que vinha com sua mãe da escola, tudo porque o então prefeito-engenheiro não sabia que uma parede sem telhado, balança... e cai.

O prédio, um barracão feito há muito tempo, perdeu o prumo e está completamente penso para um lado e via cair logo.

Agradeço as providências em nome da melhor administração do Estado de São Paulo, a de Vossa Excelência.

 

Taubaté, 25 de janeiro de 1995.

Garcílio da Costa Ferreira.

 

......

 

QUARESMEIRAS DA SAUDADE.

 

Taubaté, 18 de março de 1985.

 

Exmo. Sr. Dr. José Bernardo Ortiz

DD. Prefeito Municipal de Taubaté

Meus respeitos.

 

“...Cuando se h doblado el meridiano de la vida, y se descende rapidamente por el declive fatal, todo gesto que se esboza, tiene la significacion augusta de um: Adiós. E toda la linea que se escribe, tiene uma irremisible gravedad testementaria”.

 

“...La avenida que se extiende mas allá de él, es uma avenida bordeada de ciprestes, y lá linea blanca que limita el horizonte, tiene la forma y la brancura de la piedra de uma tumba...”. Vargas Vila.

 

É baseado nessas máximas de Vargas Vila, que lhe escrevo esta carta, sugerindo o plantio de quaresmas roxas da esquina da Rua Dr. Jorge Winther com Humaitá, até o portão do Cemitério Municipal, para que nós e nossos entes queridos, possam sentir no roxo de frondosas quaresmeiras, um pouco de saudade do que ficou para trás.

 

Respeitosamente,

 

Garcílio da Costa Ferreira.

 

......

 

 

 

SUGERINDO E OFERECENDO AJUDA.

 

 

Taubaté, 30 de outubro de 1985.

                 Meu caro Prefeito.

 

Mais uma carta, esta, como as outras, de colaboração ao seu governo. Caiu a ponte que dá ligação Independência-Quiririm. Até aí, nada demais, somente um acidente sem causas graves. Entretanto, se projeta no leque de suas realizações mais um fato novo, que vem por em relevo a oportunidade de mais uma obra de arte.

Como colaboração ao seu governo, peço licença ao Engenheiro-Prefeito para sugerir uma obra que fique para sempre, marcando sua passagem pela Prefeitura de Taubaté, como tantas outras que já marcam sua capacidade administrativa.

Assim, sugiro que, com tubos de 2 metros de diâmetro, seja feita uma tubulação de 12 metros, aterrando-se depois até atingirmos uma altura suficiente que dê a parte carroçável a largura de 8 metros, com uma saia de 12 metros.

Para aterro ofereço 50 caminhões de terra que está a 300 metros do local. Da mina de areia próxima, podermos conseguir alguns caminhões de pedregulho para a parte final da pista.

Essa estrada, como outras que desafiaram várias administrações, só viu pedregulhamento no seu governo.

Respeitosamente,

Garcílio da Costa Ferreira.

 

......

 

 

UM AMIGO NA ADVERSIDADE.

 

Nesta hora, em que a adversidade bate em sua porta, quero levar ao prezado patrício, os meus votos de pronto restabelecimento, para a alegria de todos nós.

Como nas palavras bíblicas, “será sempre combatido, mas nunca vencido”. Assim foi no episódio da cassação, onde deu mostras de coragem e sangue frio, governando Taubaté mesmo depois de cassado, com o vice já se aprontando para assumir. Assim foi na sua substituição no cargo, quando apresentou e apoiou um homem sem tarimba política, embora competente, como vem dando mostras, que sem seu apoio, não teria 3000 votos.

Várias foram as pedras no seu sapato, nesta caminhada gloriosa de sua trajetória política, agora, ao invés de pedras, entrou no sapato um carvão, que foi facilmente esmagado na caminhada de Taubaté à Brasília.

Por último, tivemos as pedras na vesícula, que sem dúvida, foram as mais dolorosas. Felizmente, sua saúde está em franco restabelecimento.

Sua campanha política não será prejudicada, pois, terá os votos da gratidão do povo de Taubaté, Caçapava e Pindamonhangaba. A carreata foi um sucesso e com mais dois ou três comícios serão suficientes para encerrarmos essa campanha vitoriosa.

À vitória, pois, com 150.000 votos é o meu desejo.

Com um abraço do amigo e admirador,

 

Garcílio da Costa Ferreira.

 

......

 

 

CUIDADO PREFEITO! QUEM AVISA AMIGO É.

 

Taubaté, 06 de novembro de 1988.

 

                                                          Meu caro Prefeito.

                                                                    Meus respeitos.

 

Mais uma vez, tenho trazer sugestão à nossa causa, a eleição do candidato Ortiz. Não podemos subestimar o valor dos do lado de lá, são gente esperta que não vacilarão, por todos os meios, prejudicar a nossa causa.

Os caçadores já venderam a Winchester e o capacete de caças-leões, outro trocou os instrumentos da caçada por uma bengala. Os traidores ficaram às margens da estrada que o senhor percorreu, e foram tantas!

O primeiro não conseguiu se sentar na cadeira de prefeito, diz o ditado que “os vices são como os ciprestes, só crescem à beira dos túmulos”; outro, ganhou uma toga lilás e foi obrigado a entregar ao almoxarifado. E assim por diante, os ladrões foram escorraçados, não precisou das vassouras de Jânio para fazer a limpeza de Taubaté.

A sugestão que lhe falei acima, vai ferir a sua modéstia, mas, nesses dias que faltam toda força é pouca; a sugestão que lhe mando agora é que mande lavar e engraxar todo o maquinário existente e faça uma passeata das 15 às 18 horas do dia 12, por várias ruas de Taubaté, não devendo faltar nem uma viatura por pequena que seja. Nos caminhões basculantes, o primeiro deve ter um cartaz grande dizendo: “Achei 5 e deixo 30”; Limpeza Pública a mesma coisa, ambulâncias, tratores, carretas, tudo atrás do outro, principalmente pelo centro e depois pela periferia. Será uma surpresa para o adversário que não espera isso e nem pode usar essa arma. Não deve ficar no DSU ou no Serviço de Transporte, uma só viatura, tendo o senhor no carro do prefeito, na frente, como Comandante de todo o efetivo. Na sequência virão, o primeiro escalão, depois, todos os assessores seus nos carros, Departamento Jurídico, Departamento do Bem Estar Social, FUSSTA, AMETRA, DSU, DOP, DIP, ST com os carros funerários, a Limpeza Pública com seu pessoal nos caminhões, inclusive as “margaridas” ou “rosas vermelhas” do tempo do Waldomiro. Nas esquinas ou cruzamentos ficará um elemento com fogos de estouro para anunciar a chegada da vanguarda do desfile. Duas bandas de música no caminhão se revezarão nos dobrados. Se fosse possível, visita a todos os presidentes de Associação de Bairros, a menos que eles façam parte do cortejo.

Tenho certeza que os queixos dos de lá, vão cair. Sei que o senhor vai dizer “Não tenho tempo para essa palhaçada”, mas eu digo, nessa hora vale tudo, não podemos acreditar na gratidão do povo, “só não recebe uma ingratidão quem nunca fez o bem”.

É preciso sacudir essa gente, mostrar o que foi feito em Taubaté nesses seis anos de Governo Ortiz.

Até o dia da posse na Reitoria.

Atenciosamente,

Garcílio da Costa Ferreira.

 

 

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Velho Guerreiro | 19/06/2014
Ao melhor Velho Guerreiro. Esse meu pai e esse meu irmão, são FERREIRA, parentes de LAMPIÃO. Não fogem da briga e também são BRASILEIROS.
Gilmar da Costa Ferreira Treze

Historiador nato. | 20/10/2013
Esse professor teve por quem puxar! Esse meu tio, mandava bem na arte de escrever. E como ele dizia, "É FORMIDÁVEL".
Nestor da Costa Ferreira

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